O Primeiro Deferir
Ele era apenas um menino, mas já aguentava firme os quilos de equipamento... O eventual tilintar das armas nos escudos, o canto distante e inocente dos periquitos na, por enquanto calma planície, o constante galope dos comandantes... tudo isso se juntava à luz e ao calor intensos do Sol, ao forte cheiro de suor e ao silêncio pesado das companhias para formar aquela estranha atmosfera tensa e ansiosa; um clima quase agonizante.
Os generais acabaram a normal troca de cumprimentos no campo de batalha e os druidas agora protegiam seus respectivos soldados com suas danças palidamente assustadoras. A qualquer momento, agora, soaria o comando. Fóóóóón. Gritaram as trombetas!
----- Avante, vulpianos!!!
Agora era tarde demais pra se acovardar! Os segundos da aproximação pareceram durar minutos, talvez horas, enquanto um mar negro e amarelo descia milimetro por milimetro o suave declive para encontrar-se com uma onda agitada de pontos pretos, pratas e azuis. Cem metros, o mar agora mais se parecia um conjunto de pontos ; cinquenta e já se distinguiam os cavalos dos homens; trinta, os estandartes e as bandeiras já eram nítidos; quinze; dez metros e já se via as insígnias brilhando nos escudos; cinco, as espadas já se emparelhavam desesperadamente; dois, o brilho dos olhos e o medo no homem à sua frente podiam ser sentidos no coração; zero.
Pruma, a espada, deferiu seu primeiro golpe certeiro na cintura de um homem; anos de treinamento para esse momento, para esse corte. Aquele brilho, agora estranhamente calmo, nos olhos do homem já velho, se misturava ao cheiro de sangue e à sensação ímpar de lâmina atravessando a carne, dando a esse momento um sentimento único de tristeza, tranquilidade, ternura e ânimo. A angústia e o questionamento pelas centenas, talvez milhares de vidas tombadas viriam só muito mais tarde, em condições muito diferentes, como o próprio menino, já senhor, haveria de perceber.
O relinchar dos cavalos, os amigos caídos e os crânios partidos, a chuva de flechas e o sangue no chão... tudo parecia não passar de um sonho. Da primeira gota de sangue ao último grito de adeus. Era como se tudo estivesse sendo contado por um bardo ou avô. Até mesmo quando ele foi Rei, a sensação do combate era sempre a mesma. A do garoto tímido que deixava a batalha fluir na sua forma mais espontânea pelo seu sangue, escudo e espada.
O caos ainda perdurava, mas a massa ia ficando mais rala. No chão, corpos e armaduras. Eventualmente um rosto conhecido. Ainda se ouvia os duelos finais. O último baque surdo de homem ao chão. Silêncio. Vitória.
As lágrimas diziam muito da dor das perdas e do contentamento do êxito. É um desses raros momentos que ao mesmo tempo choramos e sorrimos os extremos da vida; que sorrimos ao abraço úmido do amigo; que suspiramos aliviados o olhar do filho; que gritamos, perdidos, a morte do irmão.
Vinícius Aloe 27/12/2005
Os generais acabaram a normal troca de cumprimentos no campo de batalha e os druidas agora protegiam seus respectivos soldados com suas danças palidamente assustadoras. A qualquer momento, agora, soaria o comando. Fóóóóón. Gritaram as trombetas!
----- Avante, vulpianos!!!
Agora era tarde demais pra se acovardar! Os segundos da aproximação pareceram durar minutos, talvez horas, enquanto um mar negro e amarelo descia milimetro por milimetro o suave declive para encontrar-se com uma onda agitada de pontos pretos, pratas e azuis. Cem metros, o mar agora mais se parecia um conjunto de pontos ; cinquenta e já se distinguiam os cavalos dos homens; trinta, os estandartes e as bandeiras já eram nítidos; quinze; dez metros e já se via as insígnias brilhando nos escudos; cinco, as espadas já se emparelhavam desesperadamente; dois, o brilho dos olhos e o medo no homem à sua frente podiam ser sentidos no coração; zero.
Pruma, a espada, deferiu seu primeiro golpe certeiro na cintura de um homem; anos de treinamento para esse momento, para esse corte. Aquele brilho, agora estranhamente calmo, nos olhos do homem já velho, se misturava ao cheiro de sangue e à sensação ímpar de lâmina atravessando a carne, dando a esse momento um sentimento único de tristeza, tranquilidade, ternura e ânimo. A angústia e o questionamento pelas centenas, talvez milhares de vidas tombadas viriam só muito mais tarde, em condições muito diferentes, como o próprio menino, já senhor, haveria de perceber.
O relinchar dos cavalos, os amigos caídos e os crânios partidos, a chuva de flechas e o sangue no chão... tudo parecia não passar de um sonho. Da primeira gota de sangue ao último grito de adeus. Era como se tudo estivesse sendo contado por um bardo ou avô. Até mesmo quando ele foi Rei, a sensação do combate era sempre a mesma. A do garoto tímido que deixava a batalha fluir na sua forma mais espontânea pelo seu sangue, escudo e espada.
O caos ainda perdurava, mas a massa ia ficando mais rala. No chão, corpos e armaduras. Eventualmente um rosto conhecido. Ainda se ouvia os duelos finais. O último baque surdo de homem ao chão. Silêncio. Vitória.
As lágrimas diziam muito da dor das perdas e do contentamento do êxito. É um desses raros momentos que ao mesmo tempo choramos e sorrimos os extremos da vida; que sorrimos ao abraço úmido do amigo; que suspiramos aliviados o olhar do filho; que gritamos, perdidos, a morte do irmão.
Vinícius Aloe 27/12/2005

<$BlogItemCommentCount$> Comments:
Sujinho.... Nossa.. nossa.. nossa!!!
Não é um comentário super inteligente.. hehe mas se vc me conhece vc vai entende-lo. hehe
Gostei muito!! e vc é uma caixinha de surpresas!!
UM beijão!! Adoro vc!!
Caaramba...se você fizer um livro inteeeeiro nesse estilo eu compro e leio com gosto !!
Ve se você entra no msn em horários acessíveis pra eu te fazer umas perguntas sobre esse texto >_>!
Por sinal, feliz aniversário huauhau!
Eu sei que já comentei desse texto no MSN, mas não custa deixar registrado que
"As lágrimas diziam muito da dor das perdas e do contentamento do êxito. É um desses raros momentos que ao mesmo tempo choramos e sorrimos os extremos da vida; que sorrimos ao abraço úmido do amigo; que suspiramos aliviados o olhar do filho; que gritamos, perdidos, a morte do irmão."
foi uma das melhores coisas que já li.
Ao mesmo tempo chorar e sorrir as coisas da vida, fiquei pensando bastante nisso. Aliás, como em tudo que você me diz.
Beijos!
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